NOSSOS POBRES NÚMEROS

Por Antonio Luiz Mendes de Almeida

Universidade Cândido de Almeida

       O ministro debochado e vulgar continua no posto e a senhora presidente faz de conta que não teve a sua autoridade contestada. Não sei se ela tem vontade própria, mas ao aceitar a postura de quem deveria ser subordinado, ficou evidenciado que ela se tornou docemente refém dos partidos e dos corruptos. Outros casos surgirão, novas manchetes e qual será o comportamento? Bastará gritar “eu te amo” e ficará tudo bem? Acredito que sim…

Vida que segue e vejo que há alguns números em educação que permanecem imutáveis entra ano, sai ano, sobre os quais já escrevi e, poupando os neurônios, posso repetir por continuarem atuais. Um desses indicadores é a relação professor-aluno de nossas universidades públicas. Dizem os dados que ela se situa, na média, em 8 para um, embora os casos conhecidos em que baixa a 4 para um e o funcionalismo chega a espantosos dois para um. Ora, sabemos todos que nas mais reconhecidas instituições do mundo, as de qualificação e renome indiscutíveis dos países desenvolvidos e líderes, que esta proporção se expressa em dezesseis a vinte por um. Então, malgrado a mania de sermos os únicos certos, não acredito que nossa posição seja correta e justificável. Na realidade, configura-se um assalto aos cofres públicos e a política de benesses que preside as atividades entregues à gerência governamental. A desproporção entre o parâmetro que aplicamos e os praticados universalmente representa um esbulho ao contribuinte e, pior, o desvio de verbas que poderiam ser aplicadas de melhor maneira no aperfeiçoamento da educação e também no incremento da remuneração docente. Com os recursos esquartejados, distribuídos fartamente atendendo aos pedidos, é claro que as despesas fermentam e as receitas serão sempre insuficientes para cobri-las. A questão é reconhecida, mas nada acontece, mantém-se a situação que irá se manifestar com larga gravidade no inchaço de pagamento de aposentadorias que se aproximam velozmente do mesmo montante empregado nas folhas dos ativos. Explica-se, então, a situação sempre perigosa e periclitante das instituições públicas que se ressentem, o que igualmente é de conhecimento de todos, de uma gestão eficiente. E a organização funciona, progride, avança, quando os que a comandam se tornam responsáveis pelo fracasso que possam ocasionar, respondendo com seus bens ou com o descrédito pessoal diante da sociedade. Como em nenhuma autarquia, empresa estatal, fundações, órgãos oficiais e assemelhados existe esta possibilidade de assumir os ônus do insucesso, não há, em decorrência, preocupação e necessidade de demonstrar capacidade, de criar e inovar, de apresentar boas performances: trabalhe ou não, seja bom ou mau funcionário e, no caso, bom ou mau professor, o salário será depositado no final do mês (em episódios de greve também…) e a missão se considerará cumprida. Somente o jogo de interesses e o costume dos apaniguamentos podem explicar a distorção dos nossos índices que contribuem para deterioração das universidades públicas que deveriam ser uma referência, modelos e paradigmas de atuação no terceiro grau. Sou da iniciativa privada, mas não deixo de sublinhar a importância dos estabelecimentos de ensino oficiais e do papel relevante que lhes cabe desempenhar, mas que não conseguem porque se perdem em picuinhas de corporativismo, não se reformulam, não definem padrões de administração adequada às exigências dos dias que enfrentamos. Nós que pagamos, não cobramos o retorno da eficiência e da qualidade, não vemos a contabilidade, não fiscalizamos o correto uso do dinheiro que nos é tungado nos impostos diversos e que acaba saindo pelos ralos de instituições mal organizadas, internamente perdulárias e que se julgam soberanas, sem contas a prestar à população que as suportam. Quando se intenta algo diferente, se apresenta um projeto, a resposta imediata e tola é a de que se está ferindo a intocável autonomia universitária, ciosamente resguardada ou que se quer a privatização do ensino. O engraçado é que existe a autonomia pedagógica indiscutível, mas não está interessando assumir a administrativa que os tornaria fiadores do empreendimento e obrigados a buscar outras fontes de financiamento de suas atividades que não somente esperar a liberação das verbas votadas e das quais dispõem sem riscos de serem acusados de malversação se as esbanjarem na montagem de suas “pirâmides”. Quando se fala em cobrança de mensalidades, desvia-se, repito, para o conceito de privatização quando não há ligação entre eles. A contrapartida do pagamento pelas lições recebidas se aplicaria àqueles que podem pagar e serviria como numerário para o atendimento de necessidades urgentes, além de, tenho certeza, abrir mais vagas para os carentes. A razão é cristalina: se tiver que gastar, vou escolher a que me é mais conveniente por estar perto de casa, corpo docente melhor, instalações mais adequadas e confortáveis, sem paralisações. Se for de graça, companheiro, serve qualquer coisa e não há direito a chios… Vou além e reproduzo linhas veteranas: quem estuda de graça tem o dever de devolver o que recebeu em trabalhos comunitários nos milhares de municípios espalhados pelo país. Receberia pagamento, mas estaria prestando serviços por um tempo determinado em locais desprovidos de atendimento básicos. Seria o certo, mas quem tem coragem de fazer, de afrontar os privilegiados?

Outro número me chama a atenção e também não encontra o deslinde apropriado: o percentual de repetência, dos sete aos dezessete anos. Ora, este efetivo de derrotados significa a necessidade de mais e maiores turmas, implicando, obviamente, custos mais elevados, rubricas engordadas e que poderiam ser utilizadas, friso novamente, para remuneração aumentada do professorado. É um índice impressionante que clama por solução desde que não seja a de aprovação automática que se constitui em um crime contra a educação. Penso e não escondo, repetindo o que aventei há mais de uma década, que o ensino fundamental e médio deveriam ser divididos em ciclos menores de dois anos, incrementando-se os currículos à proporção que o aluno avançasse e fossem conferidos certificados de habilitação a cada conclusão de um período bienal, ofertando-se saídas cronológicas mais rápidas e que pudessem representar possibilidades de ingressos diversos no mercado de trabalho, um atrativo palpável e motivador. Mantenho a idéia e gostaria de ver surgir outras que viessem aliviar este grande fardo que a nossa educação carrega, tornando-a sempre mais deficiente

P.S: Rabisquei semana passada sobre a concorrência predatória e mercantilizada das universidades que se tornaram sociedades anônimas com capital estrangeiro. Chegamos ao ponto de elas colocarem um grupo de moças de mini-saia e rapazes musculosos na porta das rivais, oferecendo descontos de 50% e, prancheta na mão, já fazendo a matrícula do incauto. Fora a total falta de ética, cometem afronta ao código do consumidor porque não explicam que a mensalidade reduzida é só para um período, no máximo dois, depois dos quais ela dobra e, mais, montam uma grade curricular que impede transferências posteriores. Temos de conviver com essa gangue e fica muito difícil defender a iniciativa privada.

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A PRO INNOVARE é uma empresa de consultoria e assessoria empresarial com técnicas, ferramentas, metodologia, modelos e capacidade para propiciar o desenvolvimento de instituições empreendedoras com a geração de resultados por meio da inovação. Refletimos de forma crítica e criativa, através de pesquisas e atividades práticas sobre o processo de inovação dentro das empresas. Nossas áreas de atuação estão associadas ao campo temático da inovação, direcionada ao segmento de serviços. Instituições baseadas em conhecimento, sistemas empresariais e institucionais de inovação e aprendizado, inovação em instituições educacionais e outros segmentos de serviços.

Publicado em 29/11/2011, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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